Lula terá de atrair partidos bolsonaristas para governar, diz Sérgio Abranches
Cientista político que criou o conceito de presidencialismo de coalizão avalia que o presidente reeleito precisará de apoio de legendas de direita no Congresso.
Revisão editorial: SabrinaEditora Sênior · ver perfil

Resumo rápido
- Sérgio Abranches avalia que Lula precisará atrair partidos bolsonaristas e de direita para formar uma coalizão no Congresso.
- O PL fez a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e elegeu 19 senadores.
- Lula disse que trabalhará com o Congresso escolhido pela população.
- Para Abranches, a mudança de tom da campanha e a queda da abstenção ajudaram na virada no segundo turno.
Passada a eleição de domingo (25/10), em que foi reeleito, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deve iniciar a preparação para o que será seu último mandato. Na avaliação do sociólogo e cientista político Sérgio Abranches, o período tende a ser desafiador, porque o governo enfrentará um Legislativo com oposição fortalecida. A análise foi dada em entrevista à BBC News Brasil.
A tese de Abranches sobre a coalizão
Segundo o especialista, Lula terá de contornar a rivalidade intensa que marcou a campanha para atrair partidos ligados ao bolsonarismo, inclusive parte do PL, e montar uma base funcional ao lado do próprio PT. Abranches afirma que o presidente deverá ampliar a participação de legendas que elegeram poucos deputados e transformar algumas siglas bolsonaristas em aliadas dentro do Centrão. Sem isso, de acordo com ele, o governo teria dificuldade para governar.
Abranches é autor do livro sobre o tema publicado pela Companhia das Letras em 2018. A obra leva o nome do conceito que ele formulou nos anos 1980, o de presidencialismo de coalizão, usado para descrever a relação entre Executivo e Legislativo no sistema político brasileiro, em que o presidente costuma depender de acordos entre vários partidos para obter maioria no Congresso.
O próprio Lula sinalizou que pretende seguir esse caminho. Em discurso num hotel em São Paulo, após a oficialização do resultado, disse que não escolheu o Congresso, que foi escolhido pela população, e que é com os parlamentares eleitos que pretende trabalhar e aprovar suas propostas.
Direita democrática e direita radical
O cientista político lembra que o PL fez a maior bancada da Câmara, com 121 deputados, e elegeu 19 senadores. Para ele, isso garantiu fôlego parlamentar à extrema direita. Ainda assim, Abranches prevê que a centro-direita migrará para a coalizão governista e poderá, de dentro dela, fazer um contraponto conservador ao PT e ao PSB.
Segundo ele, esses parlamentares seguem interessados em participar do governo, ocupar ministérios e dirigir órgãos públicos. É nessa relação institucional que, na visão do entrevistado, uma direita democrática pode recuperar o protagonismo que perdeu para a direita radical.
Como foi a virada no segundo turno
Na mesma entrevista, Abranches comentou os motivos da reeleição, a segunda da trajetória política de Lula, e a continuidade do bolsonarismo como força política após a segunda derrota consecutiva nas urnas. A BBC News Brasil destaca que nunca havia ocorrido uma virada do primeiro para o segundo turno.
Para o cientista político, o fator central foi a mudança de tom da campanha do petista, que, segundo ele, foi muito fria no primeiro turno. Flávio Bolsonaro, por sua vez, teve presença mais intensa nas ruas. Abranches afirma ainda que Lula acreditava na vitória já na primeira etapa e que isso contribuiu para parte da abstenção, que foi de 21,08%. Na avaliação dele, eleitores idosos acharam que a reeleição estava garantida e deixaram de votar, mas compareceram no segundo turno ao perceberem o risco de derrota.
O trecho da entrevista a que esta reportagem teve acesso não detalha outros fatores apontados por Abranches para a redução da abstenção no segundo turno, que ele considerou fundamental para o resultado.
Perguntas frequentes
Quem é Sérgio Abranches?
É sociólogo e cientista político, autor do livro sobre presidencialismo de coalizão, conceito que criou nos anos 1980 para descrever a relação entre Executivo e Legislativo no Brasil.
Qual foi o tamanho da abstenção no primeiro turno?
Foi de 21,08%, segundo dados citados na entrevista. Abranches atribui parte desse índice à crença de que Lula já estaria reeleito.
Fontes
BBC News BrasilComentários
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