Após reeleição de Lula, XP vê investir em ativos brasileiros 'diferente', não mais difícil
Head de alocação da XP diz que carteiras devem priorizar carrego e prazos curtos na renda fixa, depois de Ibovespa cair 13,88% e dólar subir 8,21% no primeiro pregão pós-eleição.
Revisão editorial: SabrinaEditora Sênior · ver perfil

Resumo rápido
- O Ibovespa caiu 13,88% na segunda-feira (26), a maior queda desde março de 2020, e o dólar subiu 8,21%, a R$ 5,40.
- A XP reduziu para 20% a 30% a chance de ajuste fiscal, que antes estimava em até 70%.
- Pacotes anunciados entre os turnos podem somar de R$ 60 bilhões a R$ 80 bilhões em 2026 e 2027, segundo Sgavioli.
- A XP projeta Selic entre 11,5% e 12% no fim de 2027 e vê carteiras com mais carrego e prazos curtos na renda fixa.
A reeleição de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) mudou a leitura do mercado financeiro sobre os próximos anos e, com ela, a forma de montar carteiras de investimento. É o que afirma Rodrigo Sgavioli, head de alocação da XP Investimentos, em entrevista ao InfoMoney. Segundo ele, a aposta que predominava entre o primeiro e o segundo turno, de queda dos juros longos e valorização da Bolsa, deixou de ser o cenário-base da casa.
O que aconteceu com os preços
Na segunda-feira (26), primeiro pregão após o segundo turno, o Ibovespa, principal índice da Bolsa brasileira, acionou o circuit breaker, mecanismo que interrompe temporariamente as negociações quando a queda é muito forte. O índice fechou em baixa de 13,88%, a maior desde março de 2020. O dólar subiu 8,21% e chegou a R$ 5,40. As taxas dos contratos de DI, que refletem as expectativas para os juros, avançaram mais de 300 pontos-base em alguns momentos. Cada ponto-base equivale a 0,01 ponto percentual. Nos dois pregões seguintes, o Ibovespa continuou em queda, até os 171 mil pontos.
Para Sgavioli, a maior parte do prêmio de risco dos ativos domésticos, isto é, o retorno extra que os investidores exigem para assumir o risco de investir no país, depende hoje da condução das contas públicas. Antes da eleição, a XP estimava entre 60% e 70% de chance de mudança na dinâmica fiscal, e alguns agentes de mercado chegavam a 90%. Agora, de acordo com ele, a probabilidade de um ajuste fiscal caiu para algo entre 20% e 30%.
Fiscal no centro da conta
Sgavioli afirma que a reação inicial do mercado foi de continuidade da política fiscal, com leve piora adicional, e ressalta que esse é o cenário-base do mercado, não necessariamente o da XP. Ele atribui a piora aos pacotes anunciados entre os dois turnos, que incluem despesas obrigatórias, despesas discricionárias e renúncias de receita. Juntos, podem somar de R$ 60 bilhões a R$ 80 bilhões a mais nas contas de 2026 e 2027.
Segundo o executivo, as próximas semanas dirão se o governo reeleito demonstrará disposição para ajustar também os gastos, e não só a arrecadação. Ele diz, sem fazer juízo de valor, que o receio é que o presidente não pareça acreditar que o quadro fiscal seja um problema. Sgavioli pondera que corrigir o rumo não exigiria desmontar programas sociais, mas sim controlar o ritmo de crescimento das despesas obrigatórias e revisar gastos tributários e benefícios a alguns setores.
Juros e carteiras
Com um plano considerado crível, a queda dos prêmios de risco seria gradual e, em cenário otimista, permitiria uma Selic de equilíbrio, a taxa básica de juros considerada neutra para a economia, entre 9% e 10%. O cenário-base da XP, porém, projeta a Selic entre 11,5% e 12% no fim de 2027.
Na avaliação de Sgavioli, ganhar dinheiro continua possível, mas de outro modo. Ele cita carteiras mais apoiadas no carrego, que é o retorno obtido com os juros pagos pelo ativo ao longo do tempo, e menos no ganho de capital, que depende da valorização do preço. Também menciona prazos mais curtos na renda fixa e uma postura mais tática, pelo menos até que a dinâmica fiscal fique mais clara.
Três meses antes da eleição, a XP passou a elevar a fatia de títulos prefixados, que têm a taxa de remuneração definida no momento da compra, nas carteiras. A decisão considerou a desaceleração da atividade mais cedo que o esperado e a leitura de que cortes de juros e menor prêmio fiscal ocorreriam juntos. Com a menor chance de ajuste, a casa avalia que quem ainda não montou posição talvez deva entrar em prefixados com menor intensidade e prazos mais curtos. Trata-se de uma avaliação da instituição, e não de recomendação deste portal. Segundo Sgavioli, o cenário de ajuste fiscal não está abandonado.
Perguntas frequentes
O que significa carrego numa carteira de investimentos?
Segundo a explicação da matéria, é o retorno que vem dos juros pagos pelo ativo ao longo do tempo, em contraste com o ganho de capital, que depende da valorização do preço.
Qual a projeção da XP para a Selic?
O cenário-base da XP aponta Selic entre 11,5% e 12% no fim de 2027. Em cenário otimista, com plano fiscal crível, a taxa de equilíbrio poderia ficar entre 9% e 10%.
Fontes
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