Flávio Bolsonaro fora do país: criminalistas explicam se ele pode ser chamado de foragido
Segundo especialistas ouvidos pela BBC, senador que descumpriu ordem de Moraes sobre passaportes só seria foragido se houvesse mandado de prisão contra ele.
Revisão editorial: SabrinaEditora Sênior · ver perfil
Resumo rápido
- Flávio Bolsonaro não entregou os passaportes, como determinou Alexandre de Moraes, e seu paradeiro é desconhecido.
- Criminalistas ouvidos pela BBC dizem que ele só seria foragido se houvesse ordem de prisão contra ele.
- Segundo Thiago Bottino, o descumprimento caracteriza crime de desobediência, com pena de 15 dias a 6 meses de detenção e multa.
- O senador perde o foro após 31 de janeiro, mas os inquéritos devem seguir no STF, segundo criminalistas.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) não deve ser tratado como foragido da Justiça, mesmo que tenha deixado o país depois de o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinar a apreensão de seus passaportes. A avaliação é de criminalistas ouvidos pela BBC News Brasil. De acordo com a reportagem, o parlamentar não cumpriu a ordem de entregar os documentos e seu paradeiro é desconhecido.
O que dizem os especialistas
Para o professor Gustavo Badaró, titular de Direito Processual Penal da Universidade de São Paulo (USP), a condição de foragido exige uma ordem de prisão que a pessoa não cumpre. No caso do senador, explicou, existe uma medida cautelar alternativa à prisão: a proibição de sair do país, com a entrega dos passaportes como forma de garantir o cumprimento.
Badaró afirmou que, se ficar confirmado que Flávio deixou o território nacional, ele será um investigado em inquérito policial que descumpriu uma cautelar. Segundo o professor, o descumprimento pode levar a um pedido de prisão preventiva, que Moraes poderia decretar. Só nessa hipótese, com uma ordem de prisão em vigor, o senador poderia passar a ser considerado foragido.
O professor Thiago Bottino, da Fundação Getúlio Vargas (FGV), concorda com a definição técnica do termo, que pressupõe um mandado de prisão em aberto e não cumprido. Ele pondera, no entanto, que é possível falar em fuga, porque o senador estava proibido de viajar e, ao sair, teria desrespeitado uma decisão judicial. Bottino acrescentou que o descumprimento configura crime de desobediência, previsto no artigo 330 do Código Penal, com pena de detenção de 15 dias a 6 meses, além de multa.
Foro e inquéritos em andamento
Derrotado na disputa presidencial, Flávio Bolsonaro perderá o foro privilegiado depois de 31 de janeiro, data em que termina seu mandato. O foro é a prerrogativa que leva autoridades a serem investigadas e julgadas por tribunais superiores, como o STF. Mesmo assim, criminalistas avaliam que os inquéritos contra ele devem continuar no Supremo. A jurisprudência atual da Corte mantém ali as investigações em curso quando os supostos crimes ocorreram durante o mandato e têm relação com o exercício do cargo.
Há duas investigações em andamento. Uma apura possíveis irregularidades no repasse de quase 70 milhões de dólares do Banco Master para o filme "Dark Horse", sobre o ex-presidente Jair Bolsonaro. A outra investiga suposta lavagem de dinheiro em parceria com o advogado Willer Tomaz.
O inquérito sobre o filme tramita no gabinete do ministro André Mendonça, mas está suspenso por decisão do presidente do STF, Edson Fachin. A suspensão ocorreu após uma crise que dividiu a Corte em setembro e levou a acusações de parcialidade contra o ministro. Já o inquérito sobre a suposta lavagem de dinheiro está no gabinete de Moraes.
O material disponível não esclarece onde o senador está, nem se a saída do país já foi formalmente confirmada pelas autoridades. Também não informa se houve pedido de prisão preventiva ou qualquer nova decisão de Moraes após o descumprimento da ordem.
Perguntas frequentes
Flávio Bolsonaro pode ser considerado foragido?
Segundo os criminalistas ouvidos pela BBC, só se houver uma ordem de prisão contra ele. Por ora, ele descumpriu uma medida cautelar alternativa à prisão.
Que crime o descumprimento da ordem pode configurar?
De acordo com Thiago Bottino, da FGV, trata-se de desobediência, prevista no artigo 330 do Código Penal, com detenção de 15 dias a 6 meses e multa.
Fontes
BBC News BrasilComentários
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