Startup testa espelhos espaciais para iluminar a Terra à noite e divide opiniões
A Reflect Orbital quer refletir a luz do Sol para áreas escuras com satélites. Um teste na Califórnia, feito com refletores no solo, reacendeu o debate sobre os efeitos ambientais.
Revisão editorial: SabrinaEditora Sênior · ver perfil

Resumo rápido
- A Reflect Orbital planeja 50 mil satélites com espelhos para refletir a luz do Sol sobre a Terra à noite.
- A FCC aprovou em julho um satélite de demonstração, previsto para o próximo ano.
- Um teste com refletores no solo, perto de Lone Pine (Califórnia), surpreendeu moradores com luz intensa.
- Grupos ambientalistas, astrônomos e cientistas temem impactos em animais, no sono humano e no clima.
A startup americana Reflect Orbital trabalha em uma ideia que parece de ficção científica: colocar em órbita satélites com grandes espelhos que redirecionam a luz do Sol para pontos da Terra que já estão no escuro. A empresa defende que o recurso pode ajudar em resgates, iluminar plantações e ampliar a geração de energia solar. A proposta, porém, preocupa cientistas, ambientalistas e moradores da Califórnia.
Como funciona a proposta
O plano da empresa prevê colocar 50 mil satélites em órbita ao longo da próxima década. Em julho, a Comissão Federal de Comunicações dos Estados Unidos (FCC) aprovou o pedido para lançar um primeiro satélite de demonstração, previsto para o próximo ano. Isso significa que a tecnologia ainda está em fase inicial e não opera em escala real.
Segundo as informações divulgadas, esse equipamento terá um espelho de cerca de 18 metros de diâmetro. Ele poderá refletir a luz solar sobre áreas de até 4,8 quilômetros de largura. A intensidade do brilho poderá variar, indo de algo comparável à luz da Lua até a claridade do Sol ao meio-dia.
O teste na Califórnia
Para dar uma amostra do efeito, a empresa fez um teste perto de Lone Pine, na Califórnia, próximo ao Monte Whitney. Não foi um satélite: a Reflect Orbital instalou grandes refletores móveis no solo para simular o que a tecnologia faria. A luz intensa e inesperada chamou a atenção dos moradores, e uma pessoa a descreveu como ofuscante.
Um porta-voz da companhia afirmou que a demonstração foi feita em parceria com uma equipe local e em condições reais. Segundo ele, equipes de busca e salvamento devem estar entre os primeiros clientes e, por isso, participaram do teste.
Preocupações de ambientalistas e cientistas
Em agosto, quatro organizações representadas pelo grupo Earthjustice pediram que a FCC reconsiderasse a aprovação. Elas temem que a luz refletida atrapalhe os ciclos naturais de espécies que dependem da alternância entre dia e noite. O advogado sênior Jan Hasselman fez críticas duras ao projeto e disse que toda a vida na Terra evoluiu com base nesse ritmo, com muitos dados apontando riscos ao interferir nele.
Aves, insetos e mamíferos usam a diferença entre claro e escuro para se alimentar, buscar abrigo e se reproduzir. Astrônomos, por sua vez, temem que os reflexos aumentem a poluição luminosa e dificultem a observação das estrelas. Também aparecem entre as preocupações o aumento do número de satélites em órbita e a geração de detritos espaciais.
Há ainda o aspecto da saúde humana. A exposição à luz durante a noite pode interferir no ritmo circadiano, que regula o sono e a vigília, e olhar diretamente para uma fonte muito intensa pode prejudicar os olhos.
Energia solar em debate
A Reflect Orbital argumenta que a tecnologia poderia aumentar a produção de eletricidade dos painéis solares durante a noite e reduzir a dependência de combustíveis fósseis. A ideia, no entanto, levanta dúvidas sobre mudar a quantidade de energia solar que chega à superfície do planeta.
O cientista climático David Ho, da Universidade do Havaí, criticou a possibilidade de direcionar mais energia do Sol para a Terra em um momento de aquecimento global, que está associado ao desequilíbrio energético causado pelo excesso de gases de efeito estufa. Os efeitos reais da tecnologia só poderão ser avaliados com mais testes e estudos, e a reportagem não detalha resultados científicos sobre o impacto do sistema em órbita.
Perguntas frequentes
O teste na Califórnia usou satélites?
Não. A empresa usou grandes refletores móveis instalados no solo, perto de Lone Pine, para simular o efeito. O primeiro satélite de demonstração está previsto para o próximo ano.
Quais são os principais temores dos críticos?
Eles apontam possíveis efeitos sobre aves, insetos e mamíferos, o sono humano, a observação das estrelas, o aumento de satélites e detritos em órbita e a alteração da energia solar que chega à Terra.
Fontes
Olhar DigitalComentários
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